Resposta rápida: sim. As guerras de hoje também se travam na internet, e os ataques não ficam nas fronteiras. Uma empresa sem qualquer ligação ao conflito pode sofrer danos colaterais, ser alvo de grupos "hacktivistas" por estar num país que apoia um dos lados, ou receber e-mails de burla que aproveitam as notícias. Na União Europeia, cerca de 80% dos incidentes analisados pela ENISA entre julho de 2024 e junho de 2025 foram ações de hacktivismo.
Quando rebenta um conflito armado, é comum surgir ao mesmo tempo uma vaga de ataques informáticos: uns lançados por Estados, outros por grupos de voluntários que apoiam um dos lados, e outros por criminosos que aproveitam a confusão. Neste artigo explicamos como isto pode chegar a uma empresa portuguesa e o que fazer para se proteger.
Como é que uma guerra chega aos computadores de uma empresa?
Há três caminhos principais:
- Danos colaterais. Um ataque dirigido a um país ou empresa espalha-se para fornecedores, clientes e parceiros no mundo inteiro.
- Hacktivismo. Grupos com motivação política atacam países que apoiam o outro lado, muitas vezes deitando abaixo sites de empresas e organismos públicos (ataques DDoS).
- Espionagem e oportunismo. Aumentam as tentativas de roubo de informação e os e-mails falsos com temas do conflito, como falsos pedidos de donativos ou falsas notícias urgentes.
Três exemplos reais
NotPetya (2017): a empresa que nada tinha a ver com o conflito
Entrou através de uma atualização adulterada de um programa de contabilidade ucraniano e espalhou-se a empresas do mundo inteiro que apenas trabalhavam com a Ucrânia. Destruiu dados em vez de os encriptar e causou prejuízos estimados em cerca de 10 mil milhões de dólares. Os governos dos EUA e do Reino Unido atribuíram-no às forças armadas russas.
Satélites Viasat (2022): turbinas eólicas desligadas na Alemanha
No dia 24 de fevereiro de 2022, o dia da invasão da Ucrânia, milhares de modems de internet por satélite da rede KA-SAT deixaram de funcionar. O ataque visava a Ucrânia, mas atingiu clientes em vários países europeus: na Alemanha, perdeu-se o controlo remoto de cerca de 5800 turbinas eólicas. A União Europeia, os EUA e o Reino Unido atribuíram o ataque à Rússia. Os atacantes entraram através de um acesso VPN mal configurado.
Médio Oriente (2025): cem grupos em poucos dias
Durante o conflito entre Israel e o Irão, em junho de 2025, cerca de 100 grupos hacktivistas mobilizaram-se logo nos primeiros dias, com uma média de 30 ataques DDoS reivindicados por dia. Os ataques não ficaram pelos dois países: também foram visados alvos nos EUA, no Reino Unido, na Jordânia e no Egito.
E na Europa e em Portugal?
O relatório anual da ENISA, a agência europeia de cibersegurança, analisou 4875 incidentes entre julho de 2024 e junho de 2025:
- Cerca de 80% foram hacktivismo, sobretudo ataques DDoS de baixo impacto a sites.
- Muitas destas campanhas surgiram no contexto do apoio dos países europeus à Ucrânia, lideradas sobretudo pelo grupo pró-russo NoName057(16).
- O ransomware continua a ser a ameaça com maior impacto na UE.
- O phishing (e-mails falsos) foi a porta de entrada em cerca de 60% das intrusões.
Em julho de 2025, a Europol coordenou a operação internacional Eastwood contra o NoName057(16): várias centenas de servidores foram desligados e a Alemanha emitiu seis mandados de detenção.
Em Portugal, o Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) registou em 2024 campanhas de grupos pró-russos, sobretudo ataques DDoS e alterações de páginas web. Para 2025, alertou para o aumento da espionagem informática ligada a conflitos e para grupos com motivação política que usam as mesmas ferramentas dos criminosos, incluindo ransomware.
Uma pequena empresa está mesmo em risco?
Raramente é o alvo principal, mas pode ser atingida por várias vias:
- Pelos fornecedores: o software, a cloud ou a empresa que lhe presta serviços podem ser a porta de entrada, como no NotPetya.
- Pelas infraestruturas: uma falha de internet, energia ou comunicações pode parar o negócio, como no caso Viasat.
- Pelo site: um ataque DDoS pode deixar o site ou a loja online inacessível durante horas.
- Pelo e-mail: os criminosos aproveitam os temas da atualidade para enganar os funcionários.
Como proteger a sua empresa
- Cópias de segurança com uma cópia fora da rede, testadas regularmente. É o que salva a empresa quando tudo o resto falha.
- Atualize VPN, firewalls e routers, e não só os computadores. O ataque aos satélites Viasat entrou por uma VPN.
- Autenticação em dois passos no e-mail, no acesso remoto e nas contas de administrador.
- Proteção contra DDoS no site: peça ao seu alojamento um serviço com proteção incluída ou use uma rede de distribuição de conteúdos (CDN).
- Conheça os seus fornecedores de tecnologia: que acessos têm à sua rede e como se protegem.
- Forme a equipa para desconfiar de e-mails urgentes sobre notícias, donativos ou pagamentos.
- Tenha um plano de continuidade, incluindo uma ligação à internet alternativa (por exemplo, 4G/5G) para as operações críticas.
- Acompanhe os alertas do CNCS e mantenha contacto com quem gere a sua informática.